Mário Cesariny


Mário Cesariny
(Lisboa, 1923 - 2006)

Natural de Lisboa, foi na Escola António Arroio que conheceu alguns dos seus futuros companheiros surrealistas.
Já nos anos 40 têm lugar as primeiras intervenções do grupo de surrealistas portugueses, reunidos nos cafés da capital, inspiradas no absurdo e no insólito.
Mas apenas em 1947 se dá um contacto mais formal com o movimento surrealista internacional, então já numa segunda fase.
Cesariny conhece André Breton, o autor do manifesto surrealista, em Paris. Nesse mesmo ano forma-se o Grupo Surrealista Português, que incluía também, entre outros, Alexandre O'Neill e António Pedro.
Dissidente deste primeiro grupo, Cesariny forma um outro, Os Surrealistas, a que se associam António Maria Lisboa, Pedro Oom, Carlos Calvet e Mário-Henrique Leiria. As primeiras exposições surrealistas datam de 1949 e 1950, e nelas Cesariny expõe algumas das suas obras.

Pinturas, colagens, “soprografias”, e cadavres-exquis fazem parte da sua obra plástica. No entanto, a pintura e a poesia foram sempre aliadas em Cesariny: muitas obras incluem palavras recortadas, conjugações de textos e imagens, e outras formas experimentais. Mesmo depois de desfeito o grupo surrealista, em 1952, Cesariny seguiu o seu percurso de artista plástico.

A sua obra poética e teórica inclui Corpo Visível (1950), Manual de Prestidigitação (1956), Nobilíssima Visão (1959), As mãos na água a cabeça no mar (1972), Primavera Autónoma das estradas (1980), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), Titânia e a Cidade Queimada (1977), O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras (1989).

A sua poesia é espontânea, subversiva, fulgurante, animada por um sentido de contestação aos comportamentos ou princípios mais institucionalizados ou considerados normais no campo do pensamento, da cultura, dos costumes, do erotismo. Ao recorrer a processos tipicamente surrealistas (enumerações caóticas, utilização sistemática do sem-sentido ou do humor negro, formas paródicas, trocadilhos e outros jogos verbais, automatismo, etc.), não deixa de atingir o que possa haver de imprevisível numa linguagem que sabe encontrar o equilíbrio entre o quotidiano, tantas vezes surpreendido sentimentalmente, e o insólito, a clareza e o hermetismo, a ternura e a agressividade, o artifício e a mais exaltada espontaneidade.

Nos últimos anos, Cesariny quase desapareceu da vida pública. Deixou de escrever poesia. Os amigos e antigos companheiros da aventura surrealista foram morrendo; a Lisboa dos cafés, que era o habitat do seu quotidiano e da sua poesia desapareceu. Em 2005 aceitou o Prémio Vida Literária da APE e foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Última actualização: 2006


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